“Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data”
Luís Fernando Veríssimo

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O racismo nas redações



A barca chegou, foi embora e eu fiquei. Buscamos um banco ali por perto e ouvi sua história ou o que dela ele ainda se lembrava. Não conhecera seus pais, fora adotado por uma tia e cresceu correndo atrás da familia biológica, que nunca encontrou. Na juventude, aprendera a ler e a escrever com a ajuda de uma professora para quem fazia pequenos serviços domésticos. Foi arrumando a biblioteca de um escritor famoso que conheceu o prazer da leitura dos jornais e dos livros. 
Nunca se casara, namorara pouco, era reconhecidamente um solitário. Mas queria muito ser jornalista. Conseguiu terminar o segundo grau, passou no ainda fácil vestibular para a PUC e, melhor ainda, deram-lhe uma bolsa integral. Trabalhar num grande jornal não era apenas o sonho da elite intelectual de então. Anselmo, negro, pobre, de pais desconhecidos, também sonhava com isso.

Martírio e esperança
O nome hoje é bullying, mas pode-se chamá-lo por vários outros nomes, alguns aqui impublicáveis. Dizem os psicanalistas que é coisa de criança e adolescentes, geralmente. Nem sempre. A maldade humana nunca conheceu seus próprios limites, atestam a História e o que dela se conhece. Muitas vezes, corri atrás de Anselmo, para tirar de suas costas bilhetes maldosos ali pregados e que ele corria o risco de levar para a rua. Disfarçava, dizendo que estava tirando pó do casaco. Ele ria, mas acreditava ou fingia que.
Vez por outra, mandavam-no à sala dos copidesques, sob pretexto que estava sendo ali chamado. Território proibido para os não iniciados, era corrido de lá de forma humilhante. Um dia descobri porque chegava todo amassado à redação: dormia na rua, em qualquer banco, em qualquer praça. Tomava banho no próprio jornal, usando o banheiro do pessoal da limpeza. Com o tempo percebi que, à medida que as “brincadeiras” aumentavam, aumentava, também, o imenso sentimento de rejeição que o atormentava, traduzido nas piadas e nas maldades miúdas cada vez mais criativas. 
Algumas vezes tinha que ir buscá-lo no Simpatia, um bar das proximidades, muito frequentado pela galera das redações localizadas no centro da cidade. Os rapazes da limpeza o empurravam chuveiro abaixo, enquanto eu e Fontes providenciávamos um reforçado café. Em algumas situações não o deixava chegar à redação, só pioraria seu estado emocional. Devolvia-o ao mundo. Um dia sumiu.
O tempo passou, a madrugada chegou, a família se apavorou porque eu não chegava. Marido e filha já me procuravam, temendo o pior. Mas lá estava eu, ouvindo o que para todos era uma esquisita conversa entre uma provável maluca e um mendigo. Anselmo não suportara a vida como ela se apresentava naquela conturbada década de 1960. Fora humilhado acima do que lhe seria suportável, descobrira que não tinha estrutura emocional para tanto. O esforço de alguns poucos também não fora suficiente para ajudá-lo. O passado estava sempre presente; o álcool, sua única droga, era seu principal alento. Comia o que lhe davam, quando lhe davam. Conhecera a poesia e, quando não estava com sua latinha em busca de alguns trocados pelas ruas do centro da cidade, sentava no banco e escrevia.
Pedi para ver. Ele tirou de um envelope, que um dia fora branco, um punhado de papéis com alguns incompreensíveis garranchos escritos a lápis. Não deixou que eu levasse. Eram garranchos, ele reconhecida, mas era tudo que sobrara de uma época em que o martírio se juntou à esperança. Venceu o primeiro.
O que faz a diferença
Anselmo morreu e foi enterrado como indigente. Ainda o procurei lá pela Praça 15 e arredores, mas nunca mais o encontrei. Soube pelos outros mendigos da área que havia morrido e estava enterrado, provavelmente, em um cemitério localizado em Ricardo Albuquerque, subúrbio da Zona Oeste do Rio, e único em todo o estado voltado para o sepultamento de indigentes e de cadáveres produzidos pela polícia. Sofria de diabetes em grau elevado, que nunca tratou. Quando ainda estava no JB, várias vezes lhe perguntei a quem deveria procurar, caso adoecesse. Fugia da resposta, como se o assunto fosse um doloroso tabu.
Infelizmente, casos como o do Anselmo não são raros em nossas redações, embora o dele tenha sido o mais trágico, pela forma como era humilhado publicamente. Meus heróis eram de barro e Anselmo, entre outros, me mostrou isso. Também não foi o único que socorri em situação desesperadora. E nem sempre o álcool foi o maior problema. A droga fez muitas vítimas também. A Aids levou amigos e colegas queridos. Que tipo de ajuda poderiam receber de seus próprios pares e das empresas onde trabalhavam? Muita, mas eram ignorados, além de ridicularizados. Faziam parte, como numa espécie de catarse coletiva, daquela porção folclórica das redações.
Por que nada se publica a respeito? De que e de quem temos medo? Por que essa blindagem em torno de uma realidade que ninguém desconhece? Para nos manter como heróis perante essa garotada desinformada que sai das universidades sem a menor noção para onde estão indo? Por que posamos de deuses, se não passamos de seres humanos fragilizados por um trabalho que, se numa ponta nos gratifica, na outra nos mata aos poucos?
O jornalismo brasileiro não precisa de heróis. Ele precisa, isso sim, de profissionais qualificados, éticos, menos comprometidos com a fama e mais com o bom sentimento do dever cumprido, em todos os níveis. Principalmente, mais coerentes com aqueles princípios que fazem a diferença entre os bons e os maus. 
Ouvi de um grande brasileiro uma frase que marcou a minha vida em muitos sentidos: a gente conhece os bons não tanto pelo que fazem, mas justamente pelo que NÃO fazem.
Para ter acesso a todo o texto, clique aqui.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Verdades sobre o Horário Eleitoral


O início do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) evoca, regularmente, uma série de comentários críticos, preconceitos e reclamações das mais variadas origens, inclusive dos concessionários do serviço público de rádio e televisão.

Trata-se, portanto, de uma ocasião propícia para que algumas verdades sejam lembradas. Registro três.

1. Ao contrário do que o próprio nome indica, o HGPE nunca foi gratuito. A cada eleição, em cumprimento ao que determina a Constituição Federal (parágrafo 3º do artigo 17) e a Lei Eleitoral (9.504/1997, artigo 99), a Presidência da República faz conhecer, através de decreto, a regulamentação que normatiza a “compensação fiscal” que cada concessionário de radiodifusão terá pela “veiculação” da propaganda eleitoral. Este ano o decreto foi assinado no último dia 17 (7.791/2012).

É preciso que fique claro, portanto, que no HGPE o “gratuito” é o acesso de candidatos, partidos e coligações ao rádio e à televisão. Sua “veiculação”, ao contrário, não é gratuita.

Na verdade, a Receita Federal “compra” o horário das emissoras, permitindo que deduzam do imposto de renda em torno de 80% do que receberiam caso o período destinado ao HGPE fosse comercializado. O cálculo da “compensação fiscal” aos concessionários toma por base o valor de tabela para propaganda comercial nos horários utilizados. Pode-se afirmar com segurança que prejuízo não há, podendo haver até mesmo ganhos. De acordo com números divulgados em outubro de 2009, estimava-se que, em 2010, os custos para os cofres públicos dessa “compensação fiscal” chegariam a R$ 851,1 milhões.

2. O HGPE é certamente o que a legislação brasileira tem de mais próximo do chamado “direito de antena”. Vale dizer, o acesso gratuito ao serviço público de rádio e de televisão que devem ter – de acordo com sua relevância – partidos políticos e organizações sindicais, profissionais e representativas de atividades econômicas e outras organizações sociais. O “direito de antena” já é praticado, faz tempo, em países como Alemanha, França, Espanha, Portugal e Holanda.
O jurista Fábio Konder Comparato, no brilhante prefácio que escreveu para nosso Liberdade de Expressão vs. Liberdade da Imprensa (Publisher, 2ª edição, 2012), propõe: “Além dos partidos políticos, devem poder exercer o chamado direito de antena, já instituído nas Constituições da Espanha e de Portugal, as entidades privadas ou oficiais, reconhecidas de utilidade pública. Ou seja, elas devem poder fazer passar suas mensagens, de modo livre e gratuito, no rádio e na televisão, reservando-se, para tanto, um tempo mínimo nos respectivos veículos.”

3. Tendo em vista o enorme poder que o rádio e a televisão exercem em nossa sociedade como fonte de informação política e de persuasão, o tempo que partidos e candidatos dispõem no HGPE certamente ainda constitui (apesar da internet e de suas redes sociais) um fator determinante nos resultados eleitorais. Não é sem razão que alianças aparentemente paradoxais são feitas entre partidos políticos – antes das eleições – para garantir maior espaço no rádio e na televisão.

Infelizmente, muito do resultado positivo que determinado partido e/ou candidato alcança no HGPE se deve ao desempenho eficiente de profissionais de marketing, que “reduzem” o discurso político à linguagem comercial da grande mídia, despolitizando a própria política.

De qualquer maneira, o HGPE constitui momento decisivo no processo eleitoral, base da democracia representativa brasileira.

É sempre bom lembrar essas verdades.

Venício A. de Lima é jornalista, sociólogo, professor aposentado da UnB e autor de, entre outros livros, Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012

sábado, 4 de agosto de 2012

O lançamento de uma "guerra humanitária" contra a Síria


por Michel Chossudovsky
A arma da desinformação.A administração Obama, em ligação com Londres, Paris, Tel Aviv e o quartel-general da NATO em Bruxelas, está a contemplar várias "intervenções de opções" militares contra a Síria, incluindo a realização de operações navais e aéreas em apoio às forças rebeldes de "oposição" sobre o terreno.

Os EUA e o seu impassível aliado britânico estão num "pé de guerra humanitário".

Forças aliadas, incluindo operativos de inteligências e forças especiais, reforçaram a sua presença no terreno em apoio ao "Exército Livre da Síria" (ELS). Foi informado que o Ministério da Defesa britânico está a "formular planos de contingência para o caso de o Reino Unido decidir instalar tropas nesta região volátil".

Posicionamentos de forças navais e aéreas já foram anunciados pelo Ministério da Defesa britânico. Segundo notícias de tablóides de Londres, citando fontes militares "confiáveis", "... a escalada da guerra civil [na Síria] torna cada vez mais provável que o Ocidente seja forçado a intervir". ( Daily Mail , July 24, 2012)

Uma campanha de bombardeamento no estilo "pavor e choque" do Iraque não está, por razões práticas, a ser contemplada: "analistas da defesa advertiram que uma força de pelo menos 300 mil soldados seria necessária para executar uma intervenção em plena escala [na Síria]. Mesmo assim, esta enfrentaria resistência feroz. ..." (ibid)

Ao invés de executar uma operação relâmpago total, a aliança militar EUA-NATO-Israel optou por intervir sob o diabólico enquadramento do R2P, da "guerra humanitária". Modelado na Líbia, as seguintes grandes etapas estão a ser encaradas:
1- Uma rebelião apoiada pelos EUA-NATO, integrada por esquadrões da morte, é lançada sob o disfarce de "movimento de protesto (meados de Março de 2011 em Daraa)

2- Forças especiais britânicas, francesas, qataris e turcas estão sobre o terreno na Síria, aconselhando e treinando os rebeldes bem como supervisionando operações especiais. Mercenários contratados por companhias de segurança privada também são envolvidos no apoio às forças rebeldes.

3- As matanças de civis inocentes pelo Exército Livre Sírio (ELS) são deliberadamente executadas como parte de uma operação encoberta de inteligência (Ver SYRIA: Killing Innocent Civilians as part of a US Covert Op. Mobilizing Public Support for a R2P War against Syria , Global Research, May 2012)

4- O governo sírio é então culpabilizado pelas atrocidades resultantes. A desinformação dos media articulada para a demonização do governo sírio. A opinião pública é levada a endossar uma intervenção militar com fundamentos humanitários.

5- Respondendo à indignação pública, os EUA-NATO são então "forçados a intervir" sob o mandato humanitário da ""Responsibility to Protect" (R2P). A propaganda dos media entra então em alta velocidade. "A Comunidade Internacional vem para o resgate do povo sírio".

6- Navios de guerra e caças de combate são então posicionados no Mediterrâneo Oriental. Estas acções são coordenadas com o apoio logístico aos rebeldes e às forças especiais no terreno.

7- O objectivo final é "mudança de regime" que leve à "ruptura do país" de acordo com linhas sectárias e/ou a instalação de um "regime dominado ou influenciado por islamistas" modelado no Qatar e na Arábia Saudita.

8- Os planos de guerra para a Síria são integrados com aqueles referentes ao Irão. A estrada para Teerão passa por Damasco. As implicações mais vastas da intervenção EUA-NATO são escalada militar e o possível desencadeamento de uma guerra regional estendendo-se desde o Mediterrâneo Oriental até a Ásia Central, na qual a China e a Rússia poderiam ser directa ou indirectamente envolvidas.
As etapas de 1 até 4 já foram implementadas.

A etapa 5 foi anunciada.

A etapa 6, envolvendo o posicionamento de navios de guerra britânicos e francesas no Mediterrâneo Oriental está destinada a ser lançada, segundo o Ministério da Defesa britânico, "ainda neste Verão". (Ver Michel Chossudovsky, The US-NATO War on Syria: Western Naval Forces Confront Russia Off the Syrian Coastline? Global Research, July 26, 2012.

A fase 7, nomeadamente a "mudança de regime" – a qual constitui o fim do jogo da guerra humanitária – foi anunciada por Washington em numerosas ocasiões. Nas palavras do secretário da Defesa Leon Panetta, referindo-se ao presidente Bashar Al Assad: "Já não é mais uma questão de se ele está chegar ao fim, é de quando".

O fim do jogo: Desestabilizar o estado laico, instalar o "Islão político" 

Royal United Services Institute for Defence and Security (RUSI) , um think-tank instalado em Londres, com laços estreitos tanto com o Ministério da Defesa britânico como com o Pentágono, sugeriu que "alguma espécie de intervenção [militar] ocidental na Síria está a parecer cada vez mais provável... O que o RUSI tem em mente no seu Resumo sobre a crise síria intitulado A Collision Course for Intervention , é o que pode ser descrito como "Uma invasão suave", levando ou a uma "ruptura do país" de acordo com linhas sectárias e/ou a instalação de um "regime dominado ou influenciado por islamistas" modelado no Qatar e na Arábia Saudita.

Vários "cenários" envolvendo operações de inteligência "clandestina" são avançados. O objectivo não mencionado destas opções militares e de inteligência é desestabilizar o estado leigo e implementar, através de meios militares, a transição rumo a um "regime pós-Assad dominado ou influenciando pelo Isão" modelado no Qatar e na Arábia Saudita.
"É necessária uma melhor observação das actividades e relacionamento da Al-Qaida e os outros jihadistas salafista internacionais que estão agora a entrar no país em números crescentes. É provável que as comportas se abram ainda mais pois jihadistas internacionais são fortalecidos por sinais de progresso significativo da oposição contra o regime. Tais elementos têm o apoio da Arábia Saudita e do Qatar e teriam sem dúvida um papel na Síria a seguir ao colapso de Assad. O âmbito do seu envolvimento precisaria ser considerado no planeamento da intervenção. (Ibid, p. 9, ênfase acrescentada)
Se bem que reconhecendo que os combatentes rebeldes são rematados terroristas envolvidos na matança de civis, o Resumo RUSI, mencionando considerações tácticas e de inteligência, sugere que as forças aliadas no entanto deveriam apoiar os terroristas (isto é, as brigadas terroristas foram apoiadas pela coligação dirigida pelos EUA desde o início da rebelião em meados de Março de 2011. Forças Especiais integraram a rebelião):
"Que desafios militares, políticos e de segurança apresentariam eles [os jihadistas] ao país, à região e ao Ocidente? Questões que incluem a possibilidade de um regime dominado ou influenciado por islamistas herdando armamento refinado, incluindo sistemas de mísseis anti-aviões e anti-navios e armas químicas e biológicas que podiam ser transferidas para as mãos de terroristas internacionais. Ao nível táctico, seria necessária inteligência para identificar os grupos mais eficazes e como melhor apoiá-los. Também seria essencial saber como eles operam e se o apoio pode ajudá-los a massacrar rivais ou a executar ataques indiscriminados contra civis, algo que já testemunhámos entre grupos da oposição síria". RUSI - SYRIA CRISIS BRIEFING: A Collision Course for Intervention , London, July 2012, ênfase acrescentada, p. 9 )
O reconhecimento acima confirma a resolução dos EUA-NATO de utilizar o "Islão político" – incluindo o posicionamento grupos terroristas filiados à Al Qaeda apoiados pela CIA e o MI6 – para realizar suas ambições hegemónicas na Síria.

Operações encobertas da inteligência ocidental em apoio a entidades terroristas da "oposição" são lançadas para enfraquecer o estado laico, fomentar violência sectária e criar divisões sociais. Recordaremos que na Líbia, os rebeldes "pró democracia" foram conduzidos por brigadas paramilitares filiadas à Al Qaeda sob a supervisão de Forças Especiais da NATO. A muito apregoada "Libertação" de Tripoli foi executada por antigos membros do Libya Islamic Fighting Group (LIFG).

Opções e acções militares. Rumo a uma "invasão suave"? 

Várias opções militares concretas – as quais em grande medida reflectem o pensamento em curso do Pentágono-NATO sobre a matéria – são contempladas no RUSI Syria Crisis Briefing. Todas estas opções são baseadas num cenário de "mudança de regime" exigindo a intervenção de forças aliadas em território sírio. O que é contemplado como uma "invasão suave" modeladas na Líbia sob um mandato humanitário R2P ao invés de uma blitzkrieg total estilo "pavor e choque".

O Resumo RUSI, contudo, confirma que apoio continuado e eficaz aos rebeldes do Exército Livre Sírio exigirá finalmente a utilização de "poder aéro na forma de caças a jacto e sistema de mísseis lançados do mar, da terra e do ar" combinado com a entrada de Forças Especiais e a aterragem de "infantaria anfíbia aerotransportada" (Ibid, p 16.)

Esta transição rumo ao apoio naval e aéreo concreto ao rebeldes é sem dúvida motivada também pelas derrotas da insurgência (incluindo substanciais perdas rebeldes) que se seguiram à reacção adversa das forças do governo na esteira do ataque terrorista de 18 de Julho contra a sede da Segurança Nacional em Damasco, o qual levou à morte do ministro da Defesa, general Daoud Rajha e de outros altos membros da equipe defesa nacional do país.

Várias acções militares entrecruzadas são encaradas, a serem executadas sequencialmente tanto antes como na esteira da proposta "mudança de regime".
"A opção avançada, destruição das forças armadas sírias através de uma invasão "pavor e choque" estilo Iraque, poderia sem dúvida ser cumprida por uma coligação dirigida pelos EUA. Como com todas as outras formas de intervenção, contudo, manusear os resultados seria muito menos previsível e poderia arrastar as forças da coligação a um pântano duradouro e sangrento. Actualmente essa opção pode ser excluída como possibilidade realista. ... Não há dúvida de que a neutralização substancial da infraestrutura de defesa aérea da Síria poderia ser alcançada por uma operação aérea dirigida pelos EUA. Mas isto exigiria uma campanha grande, sustentada e extremamente custosa incluindo Forças Especiais posicionadas no terrento para apontar alvos.

As opções de intervenção que restam caem grosso modo em três categorias que por vezes se sobrepõem. ... A primeira categoria é acção de imposição militar para reduzir ou acabar a violência na Síria, ... impedir forças de Assad de atacarem população civil por acção [militar] directa. [O RUSI ignora o facto de que as matanças são cometidas pelo ESL e não por forças do governo, M.C.].

A segunda é tentar provocar mudança de regime por uma combinação de apoio a forças de oposição e acção militar directa. A segunda categoria pode ser aplicada na sequência do colapso do regime. O objectivo seria apoiar um governo pós Assad ajudando a estabilizar o país e proteger a população contra violência inter-facções e represálias. ... Uma força de estabilização seria posicionada a pedido do novo governo. Em qualquer cenário de intervenção pode ser necessário ou destruir ou proteger armas químicas da Síria, se elas estiverem prestes a serem utilizadas, transferidas ou de outras formas tornadas inseguras. Isto exigiria forças de combate especializadas e potencialmente tão substanciais que provavelmente seria uma missão que só os EUA poderiam executar. [Recordando as ADM do Iraque, o pretexto das armas químicas da Séria está a ser utilizado para justificar uma intervenção militar mais musculado, M.C.]

A terceira categoria é socorro humanitário – trazer abastecimento e ajuda média a populações assediadas. ... Esta forma de intervenção, a qual mais provavelmente seria conduzida sob os auspícios da ONU, exigiria agências de ajuda tais como o Crescente Vermelho Internacional bem como forças militares armadas incluindo poder aéreo, mais uma vez baseado numa coligação NATO. O socorro humanitário pode ser necessário antes ou após uma mudança de regime. (Ver RUSI - SYRIA CRISIS BRIEFING: A Collision Course for Intervention , London July 2012, emphasis added, p.9-10 )
O "socorro humanitário" é muitas vezes utilizado como pretexto para o envio de unidades de combate. Forças especiais e operativos de inteligência são frequentemente despachados sob uma cobertura de ONG.

Acções militares concretas EUA-NATO 

Será que o Resumo RUSI reflecte a perspectiva actual do planeamento militar EUA-NATO em relação à Síria?

Que acções militares e de inteligência concretas foram tomadas pela aliança militar ocidental na sequência dos vetos chinês e russo no Conselho de Segurança das Nações Unidas?

O posicionamento de uma poderosa armada de navios de guerra franceses e britânicos já é encarada numa data não especificada "ainda neste Verão". (Ver Michel Chossudovsky, The US-NATO War on Syria: Western Naval Forces Confront Russia Off the Syrian Coastline? , Global Research, July 26, 2012)

O Ministério da Defesa britânico, contudo, sugeriu que os deslocamentos da Royal Navy para o Médio Oriente só podiam ser activado "após" os jogos olímpicos de Londres. Dois dos maiores navios de guerra britânicos, o HMS Bullwark e o HMS Illustrious foram designados, a um tremendo custo para os contribuintes britânciso, para "garantir a segurança" dos Jogos Olímpicos. O HMS Bulwark está atracado em Weymouth Bay durante os jogos. O HMS Illustrious está "actualmente ancorado no Tamisa no centro de Londres". (Ibid)

Estas planeadas operações navais são cuidadosamente coordenadas com avançado apoio aliado ao "Exército Livre da Síria", integrado por jihadistas mercenários estrangeiros treinados no Qatar, Iraque, Turquia e Arábia Saudita por conta da aliança militar ocidental.

Será que os EUA-NATO lançarão uma operação aérea total?

As capacidades de defesa aérea da Síria, segundo informações, baseiam-se no avançado sistema S-300 da Rússia? (Informações não confirmadas apontam para o cancelamento da entrega pela Rússia, a seguir à pressão de Israel, do avançado sistema míssil S300 terra-ar à Síria) (Ver Israel convinces Russia to cancel Syrian S-300 missile deal: official, Xinhua , June 28, 2012) Outras informações também sugerem a instalação de um avançado sistema russo de radar (Ver Report: Russia Sent Syria Advanced S-300 Missiles , Israel National News, November 24, 2011).

O papel das Forças Especiais 

Nos próximos meses, forças aliadas não terão dúvida em centrar-se na desactivação das capacidades militares do país incluindo sua defesa aérea, sistemas de comunicações, através de uma combinação de acções encobertas, guerra cibernética e ataques terroristas do ESL patrocinado pelos EUA-NATO.

Os rebeldes do "Exército Sírio Livre" são de infantaria da NATO. Comandantes do ESFL, muitos dos quais são parte de entidades filiadas à Al Qaeda, estão em ligação permanente com Forças Especiais britânicas e francesas dentro da Síria. O relatório RUSI recomenda que os rebeldes deveriam ser apoiados através do "posicionamento dentro do país de conselheiros das Forças Especiais com apoio aéreo a pedido:
"Conselheiros a trabalharem ao lado de comandantes rebeldes, acompanhados talvez por pequenas unidades de tropas das Forças Especiais, podiam ser táctica e estrategicamente decisivo, como se provou tanto no Afeganistão em 2001 como na Líbia em 2011. (RUSI, op cit, p. 10)
Forças Especiais têm estado no terreno na Síria desde o princípio da insurgência. Relatórios também confirmam o papel de companhia de segurança privadas, incluindo antigos mercenários Blackwater, no treino dos rebeldes do ESL. No que é descrito como "Guerra da América debaixo da mesa", Forças Especiais no terreno estão em ligação permanente com os militares e a inteligência aliada.

O influxo de combatentes jihadistas mercenários 

Desde o impasse no Conseho de Segurança da ONU, uma aceleração no recrutamento e treino de combantes jihadistas mercenários está a verificar-se.

Segundo uma fonte do exército britânico, British Special Forces (SAS) estão agora a treinar "rebeldes" sírios no Iraque "em tácticas militares, manuseamento de armas e sistemas de comunicações". A informação também confirma que treino militar de comandos está a ser efectuado na Arábia Saudita por conta da aliança militar ocidental:
"Forças Especiais britânicas e francesas têm estado a treinar activamente mercenários do ESL, a partir de uma base na Turquia. Algumas informações indicam que o treino está a ter lugar também em locais na Líbia e no Norte do Líbano. Operativos britânicos do MI6 e pessoal do UKSF (SAS/SBS) tem confirmadamente estado a treinar os rebeldes em guerra urbana bem como a fornecer-lhes armas e equipamento. Acredita-se que operativos estado-unidenses da CIA e forças especiais providenciam assistência em comunicações aos rebeldes". Elite Forces UK , January 5, 2012

"Mais de 300 [rebeldes sírios] passaram por uma base dentro do Iraque próxima à fronteira, enquanto um curso de comandos está a ser dado na Arábia Saudita.

Grupos de 50 rebeldes de cada vez estão a ser treinados por duas firmas de segurança privada que empregam antigo pessoal de Forças Especiais. "Nosso papel é puramente de instrutores ensinando tácticas, técnicas e procedimentos", disse um antigo membro da SAS.

"Se podemos ensinar-lhes como encobrir-se, atirar e evitar serem localizados por snipers será uma ajuda esperançosa". ( Daily Mail , July 22, 2012)
O papel da Turquia e de Israel 

O alto comando militar da Turquia tem estado em ligação com a sede da NATO desde Agosto de 2011 relativamente ao recrutamento activo de milhares de "combatentes da liberdade" islamistas, o que recorda o alistamento de Mujahideen pra travar a jihad (guerra sagrada) da CIA no auge da guerra soviético-afegã.
"Também discutido em Bruxelas e Ancara, relatam nossas fontes, está uma campanha para alistar milhares de voluntários muçulmanos em países do Médio Oriente e do mundo muçulmano para combater junto aos rebeldes sírios. O exército turco abrigaria estes voluntários, treinaria e asseguraria a sua passagem para dentro da Síria. ( DEBKAfile , NATO to give rebels anti-tank weapons, August 14, 2011, ênfase acrescentada)
O recente influxo de combatentes estrangeiros numa escala significativa sugere que este diabólico programa de recrutamento Mujahiden, desenvolvido há mais de um ano atrás, tem frutificado.

A Turquia também está a apoiar combatentes da Fraternidade Muçulmana no Norte da Síria. Como parte do seu apoio aos rebeldes do ESL, "a Turquia estabeleceu uma base secreta com aliados da Arábia Saudita e do Qatar para dirigir ajuda militar e de comunicações para rebeldes da Síria a partir de uma cidade próxima à fronteira" Exclusive: Secret Turkish nerve center leads aid to Syria rebels | Reuters, July 27, 2012).

O papel de Israel no apoio aos rebeldes, em grande medida caracterizado por operações encobertas de inteligência, tem sido "discreto" mas significativo. Desde o início, o Mossad apoiou grupos terroristas salafistas, os quais tornaram-se activo no Sul da Síria no início do movimento de protesto em Daraa em meados de Março. Informações sugerem que o financiamento para a insurgência Safista está a vir da Arábia Saudita. (Ver Syrian army closes in on Damascus suburbs , The Irish Times, May 10, 2011).

Enquanto canaliza apoio encoberto ao ELS, Israel também está a apoiar separatistas curdos no Norte da Síria. O grupo de oposição curda (KNC) tem ligações estreitas com o Governo Regional Curto de Massoud Barzani no Norte do Iraque, o qual é directamente apoiado por Israel.

A agenda separatista curda é destinada a ser utilizada por Washington e Tel Aviv para procurar a ruptura da Síria de acordo com linhas étnicas e religiosas – em várias entidades políticas separadas e "independentes". Convém notar que Washington também facilitou o despacho de "militantes da oposição" curda síria para o Kosovo em Maio último para participarem em sessões de treino utilizando a "perícia terrorista" do Kosovo Liberation Army (KLA). (Ver Michel Chossudovsky, Hidden US-Israeli Military Agenda: "Break Syria into Pieces ", Global Research, June 2012).

A não tão ocultura agenda militar estado-unidense-israelense é "Romper a Síria em bocado", tendo em vista apoiar o expansionismo de Israel. ( The Jerusalem Post, May 16, 2012 ).

Confrontação com a Russia 

O que se pode esperar nos próximos meses:

1) Um posicionamento naval no Mediterrâneo Oriental, cujo objectivo militar não foi claramente definido pelas forças aliadas.

2) Um maior influxo de combatentes estrangeiros e esquadrões da morte para dentro da Síria e a execução de ataques terroristas cuidadosamente visados em coordenação com os EUA-NATO.

3) Uma escalada no posicionamento de forças especiais aliadas, incluindo mercenários de companhias de segurança privadas contratadas pela inteligência ocidental.

O objectivo, sob a operação "Vulcão Damasco e Terramoto Sírio", em última análise consistir em estender os ataques terroristas do ESL à capital da Síria, sob a supervisão de Forças Especiais ocidentais e de operativos de inteligência no terreno. (Ver Thierry Meyssan, The battle of Damascus has begun , Voltaire Net, July 19, 2012). Esta opção de alvejar Damasco fracassou. Os rebeldes também foram empurrados para trás em combates intensos na segunda maior cidade da Síria, Alepo.

4) O enfraquecimento do papel da Rússia na Síria – incluindo suas funções sob o acordo de cooperação militar bilateral com Damasco – também é parte da agenda militar e de inteligência dos EUA-NATO. Isto podia resultar em ataques terroristas contra nacionais russos a viverem na Síria.

Um ataque terrorista contra a base naval da Rússia em Tartus foi anunciado menos de duas semanas após o confronto directo no Conselho de Segurança, sem dúvida por ordem dos EUA-NATO tendo em vista ameaçar a Rússia.

A seguir à chegada da flotilha naval russa de dez navios estacionados ao largo da costa síria, um porta-voz do ESL confirmou (26 de Julho) a sua intenção de atacar a base naval da Rússia em Tartus:
"Temos uma advertência às forças russas: se enviarem mais quaisquer armas que matem nossas famílias e o povo sírio nós os atingiremos duramente dentro da Síria", disse Louay al-Mokdad, coordenador logístico do Exército Livre da Síria (ELS).

"Informantes dentro do regime contam-nos que há grandes carregamentos de armas a chegarem a Tartus nas próximas duas semanas. Não queremos atacar o porto, não somos terroristas, mas se eles continuarem a actuar dessa forma não teremos opção".

O ELS formou uma "Brigada naval", composta de desertores da Marinha síria, a qual opera próximo de Tartus. "Muitos dos nossos homens costumavam trabalhar no porto de Tartus e conhecem-no bem", disse o capitão Walid, um antigo oficial da Marinha Síria. "Estamos a observar muito atentamente os movimentos dos russos".

"Podemos facilmente destruir o porto. Se atingirmos os armazéns de armas com mísseis anti-tanque ou outra arma isso dispararia uma explosão devastadora", disse um representante do ELS. "Ou podemos atacar os navios directamente". ( Syrian rebels threaten to attack Russian naval base - World - DNA , July 26, 2012)
Se a base naval da Rússia viesse a ser atacada, isto, com toda probabilidade, seria empreendido sob a supervisão de forças especiais e operativos de inteligência aliados.

Se bem que a Rússia tenha as capacidades militares necessárias para defender eficazmente sua base naval de Tartus, um ataque à base naval da Rússia constituiria um acto de provocação, o qual podia preparar o cenário para um envolvimento mais visível de forças russas dentro da Síria. Um rumo assim também podia potencialmente levar a uma confrontação directa entre forças russas e forças especiais ocidentais e mercenários a operarem dentro das fileiras rebeldes.

Segundo o RUSI Syria Crisis Briefing citado acima: "Antecipar a acção e contra-acção russa teria de ser um factor importante em qualquer plano de intervenção [militar] do Ocidente [na Síria]. Os russos certamente são capazes de movimentos arrojados e inesperados..." (RUSI, op cit, p. 5).

O mundo numa encruzilhada perigosa 

Uma "guerra humanitária" total contra a Síria está em cima da mesa do Pentágono, a qual, se executada, podia levar o mundo a uma guerra regional estendendo-se desde o Mediterrâneo Oriental ao coração da Ásia Central.

Um programa de propaganda refinado e super abrangente apoia a guerra em nome da paz mundial e da segurança global.

O cenário subjacente de conflito mundial vai muito além da concepção diabólica do 1984 de Orwell.

O Ministério da Verdade sustenta a guerra como um empreendimento para fazer a paz invertendo realidades.

Por sua vez, as mentiras e fabricações dos media "de referência" são apresentadas com variadas insinuações numa complexa teia de enganos.

Numa deturpação cínica, atrocidades documentadas contra civis sírios cometidas pela "oposição" do Ocidente estão agora a serem reconhecidas (ao invés de culpabilizar forças governamentais) como "inevitáveis" na penosa transição rumo à "democracia".

As consequências mais vastas da "Grande Mentira" são obscurecidas.

A guerra humanitária global torna-se um consenso ao qual ninguém pode desafiar.

A guerra à Síria é parte de uma agenda militar integrada à escala mundial. A estrada para Teerão passa por Damasco. O Irão, Rússia, China e Coreia do Norte também estão a ser ameaçados.

Com o posicionamento da armada naval franco-britânica ainda este Verão, navios de guerra ocidentais no Mediterrâneo Oriental estariam contíguos àqueles posicionados pela Rússia, a qual está a conduzir os seus próprios jogos de guerra, levando a uma potencial "confrontação estilo Guerra fria" entre forças navais russas e ocidentais. Ver Michel Chossudovsky, The US-NATO War on Syria: Western Naval Forces Confront Russia Off the Syrian Coastline? , Global Research, July 26, 2012).

Uma guerra à Síria, a qual inevitavelmente envolveria Israel e Turquia, podia constituir a fagulha rumo à guerra regional dirigida contra o Irão, na qual a Rússia e a China podiam ser (directa ou indirectamente) envolvidas.

É crucial difundir estas palavras e romper os canais de desinformação dos media.

Um entendimento crítico e não enviesado do que está a acontecer na Síria é de importância crucial na reversão da maré da escalada militar.

Difunda este artigo o mais amplamente possível.
Ver também:
  • Syrie: Exécutions sommaires massives de prisonniers de guerre par les terroristes islamistes de l'Armée syrienne libre (OTAN)
  • A guerra dos EUA-NATO contra a Síria:   Forças navais do ocidente frente às da Rússia ao largo da Síria , 29/Jul/12
  • "A opção salvadorenha para a Síria" ,26/Mai/12
  • Exclusive: Obama authorizes secret US support for Syrian rebels , Reuters, 1/8/2012
  • Obama does Syriana , 03/Ago/2012 (o título é alusão ao filme Syriana ) 

    O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=32170 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • segunda-feira, 16 de julho de 2012

    ‘FHC plagiou intelectuais banidos pela ditadura’


    A obra censurada de Ruy Mauro Marini

    Por MiriamL
    Da Carta Capital 
    Gianni Carta
    Censurado. Ouriques considerou FHC um liberal a serviço dos Estados Unidos. Foto: Débora Klempous
    Foram necessários 43 anos para que Subdesenvolvimento e Revolução, do mineiro Ruy Mauro Marini, desse o ar da graça no Brasil. Publicada pela primeira vez no México em 1969, a obra clássica do marxismo brasileiro ganhou edições em diversos países, inclusive naqueles da América Latina a viver sob o jugo de ditaduras. O que nos leva a perguntar: por que tanto tempo para se reconhecer um grande intelectual brasileiro? Marini (1932-1998), presidente da Política Operária (Polop) e autor de Dialética e Dependência, passou 20 anos no exílio a partir do golpe de 1964. Professor no México e no Chile, onde dirigiu o Movimento de Izquierda Revolucionária (MIR), ele não era, é óbvio, bem-vindo pela ditadura brasileira.
    Sua obra continuou, porém, a ser censurada durante a chamada “transição democrática”. Nas palavras de Nildo Ouriques, autor da apresentação de Subdesenvolvimento e Revolução (Editora Insular, 2012, 270 págs.), professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina e ex-presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC, a hegemonia liberal “monitorada” por Washington queria uma transição isenta de teorias radicais como aquelas de subdesenvolvimento e dependência de Marini.
    Segundo Ouriques, nessa empreitada para marginalizar radicais, Fernando Henrique Cardoso e José Serra serviram à hegemonia liberal e, entre outros feitos, adulteraram um famoso texto de Marini. Na esteira, FHC pegou carona para “formular” a teoria da dependência que o tornou famoso. Subdesenvolvimento e Revolução, iniciativa do Iela-UFSC, inaugura a coleção de livros críticos que serão publicados pela primeira vez no Brasil pela Pátria Grande: Biblioteca do Pensamento Crítico Latino-Americano.
    CartaCapital: Como explicar a popularidade intelectual de Ruy Mauro Marini mundo afora?
    Nildo Ouriques: A importância do Marini é teórica e política. Ele tinha rigor teórico, metodológico, e expressava a visão da ortodoxia marxista. Na experiência brasileira, e aqui me refiro ao grande movimento de massas interrompido com a derrubada de João Goulart em 1964, ele polemizou a tese socialista chilena no sentido de afirmar os limites da transição pacífica ao socialismo. Soube usar a pista deixada por André Gunder Frank do desenvolvimento do subdesenvolvimento e fez a melhor crítica aos postulados estruturalistas dos cepalinos. Fernando Henrique Cardoso, José Serra e em parte Maria da Conceição Tavares divulgavam o debate sobre a dependência como se não fosse possível haver desenvolvimento no Brasil. Para Marini, haveria desenvolvimento, mas seria o desenvolvimento do subdesenvolvimento. A tese de Frank tinha consistência, mas não estava sustentada plenamente na concepção marxista. Marini, por meio da dialética da dependência, deu acabamento para a tese que é insuperável até hoje. Daí a repercussão do seu trabalho na Itália, França, Alemanha, sobretudo nos demais países latino-americanos, inclusive aqueles submetidos a ditaduras, com exceção do Brasil.
    CC: O senhor escreveu na introdução do livro que a teoria da dependência de Fernando Henrique Cardoso foi influenciada pela hegemonia liberal burguesa.
    NO: Indiscutivelmente. Os fatos agora demonstram claramente que FHC estava a favor de um projeto de Washington de conter movimentos intelectuais radicais no Brasil. Uma das metas de Fernando Henrique e José Serra era minar o terreno de radicais como Marini. Em 1978, Fernando Henrique e Serra, que havia ganhado uma bolsa nos Estados Unidos, passaram, na volta ao Brasil, pelo México. Marini dirigia a Revista Mexicana de Sociologia (RMS), da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Eles deixaram um texto de crítica ao Marini, As Desventuras da Dialética da Dependência, assinado por ambos. Marini disse que publicaria o texto desde que na mesma edição da RMS de 1978 constasse uma resposta crítica de sua autoria. FHC e Serra concordaram. E assim foi feito. Em 1979, FHC e Serra publicaram As Desventuras nos Cadernos do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) número 23. A dupla desrespeitou a prática editorial que Marini lhes reservou no México. Em suma, a resposta de Marini não foi publicada aqui.
    Após 43 anos. O livro de Marini, censurado durante a "transição democrática" chega enfim ao Brasil
    CC: FHC e Serra teriam adulterado o texto por eles assinado ao se referir a um conceito econômico de Marini.
    NO: Alteraram um conceito fundamental na teoria de Marini: o da economia exportadora. Marini previa a redução do mercado interno e a apologia da economia exportadora no Brasil. Segundo ele, com a superexploração da força de trabalho não há salário e mercado interno para garantir a reprodução ampliada do capital de maneira permanente. A veloz tendência da expansão das empresas brasileiras força-as a sair do País, e no exterior elas encontram outras burguesias ultracompetitivas. Fernando Henrique e Serra mudaram o conceito de “economia exportadora” e substituíram por “economia agroexportadora” no texto publicado pelo Cebrap. Marini falava que o Brasil exportaria produtos industriais, inclusive aviões, como de fato exportamos. Mas isso não muda nada. A tendência da economia exportadora implica a drástica limitação do mercado interno. FHC e Serra queriam levantar a hipótese de que Marini não previa a possibilidade de o Brasil se industrializar. Em suma, Marini seria, segundo FHC e Serra, o autor da tese de que no Brasil se estava criando uma economia agroexportadora. Essa adulteração do texto numa questão tão central não ocorre por acaso.
    CC: Mas FHC, apesar disso, é tido como o pai da teoria da dependência.
    NO: É rigorosamente falso e irônico. Ele e Serra tinham a meta de bloquear essa tendência mais radical, mais ortodoxa, mais rigorosa do ponto de vista analítico de, entre outros, Marini, e pegaram carona. Daí a astúcia, no interior do debate mais importante na área de Ciências Sociais na América Latina: o da teoria da dependência. E nesse contexto se apresentaram como os pais da famosa teoria, especialmente FHC, quando em parceria com Enzo Falleto publica Dependência e Desenvolvimento na América Latina. À época, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) já não tinha condições para defender seus projetos teórico e político, e eles se apresentam como interlocutores nesse debate. Visavam por um lado recuperar as posições cepalinas e de outro evitar o radicalismo político. E foram exitosos, turbinados pelas elites nacional e internacional favoráveis a um projeto de transição lenta, gradual e segura. Um projeto dessa natureza precisa ter uma direita clássica, fascista etc., e também uma versão liberal na qual se encaixa Fernando Henrique Cardoso.
    CC: E o que ele representava?
    NO: De fato, ele encabeçou a oposição liberal à ditadura. Tornou-se suplente de senador de Franco Montoro e logo em seguida com a eleição deste para o governo do estado se transformou no grande modelo de intelectual político “dentro da ordem”, para usar uma feliz expressão de Florestan Fernandes. Não é um movimento fútil o de FHC. Ele percebe a política do Partido Democrático em Washington, no sentido de democratizar o Brasil, percebe o movimento da elite empresarial em São Paulo por meio do manifesto de 1977 contra o gigantismo estatal e percebe o movimento de massa pelo crescimento do MDB. E assim teve uma brilhante carreira política. Idem o Serra, para falar de políticos mais notórios. E conseguiram produzir numerosos intelectuais no mundo universitário, exceto a intelectualidade que estava mais presa a um novo sindicalismo e ao petismo.
    CC: O FHC parece não ter muita credibilidade no mundo acadêmico.
    NO: Ele não tem uma obra. Fernando Henrique é no máximo um polemista no interior de um debate acadêmico (dependência) no qual ele não era a figura principal. Mas cumpriu o papel decisivo no sentido de bloquear, coisa que fez com certa eficácia, as correntes mais vitais desse debate. Teve êxito especialmente com a obra de Marini, mas também com livros muito importantes de Theotonio dos Santos, Imperialismo e Dependência, ou Socialismo ou Fascismo, o Novo Dilema Latino-Americano, este publicado até em chinês, mas jamais no Brasil.
    CC: Marini concordaria com o senhor que o discurso sobre a nova classe média é uma forma de legitimar o subdesenvolvimento no Brasil?
    NO: Completamente. Esse debate esconde algo fundamental, a gigantesca concentração de renda. Enquanto se fala na ascensão da classe média, a pobreza é muito maior: 76% da população economicamente ativa vive com até três salários mínimos, 1,5 mil reais. Ou seja, nem sequer alcançam o salário mínimo do Dieese. Com meu salário de professor em greve (por aumento salarial), pertenço aos 24% mais ricos da sociedade, ao lado do Eike Batista.
    CC: Mas, de fato, Lula elevou o nível de vida de milhões de brasileiros.
    NO: Lula fez política social. O problema de Fernando Henrique e José Serra é que eles odeiam o povo. FHC não tinha uma política social para o País. Mas política social não traz emprego e renda. Num país subdesenvolvido, inclusive numa estratégia revolucionária, é preciso ter programas emergenciais. A estratégia da erradicação da pobreza de Dilma Rousseff não pode ser realizada exclusivamente com política social. O petismo está mostrando seus limites porque terá de confrontar o poder, o prestígio social e a elite. Se não enfrentar tudo isso, será devora

    sábado, 14 de julho de 2012

    AFINAL, O QUE É A INTELIGÊNCIA?


    O que é ser inteligente, na visão instigante do ficcionista Isaac Asimov

    Isaac Asimov (1920 -1992), foi um escritor e bioquímico americano, nascido na Rússia, autor de obras de ficção científica e divulgação científica. Dez anos após sua morte, rola na internet esse curioso artigo, que nos foi enviado pelo comentarista Mário Assis.
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    AFINAL, O QUE É A INTELIGÊNCIA
    Isaac Asimov
    Quando eu estava no exército, fiz um teste de aptidão, solicitado a todos os soldados, e consegui 160 pontos. A média era 100. Ninguém na base tinha visto uma nota dessas e durante duas horas eu fui o assunto principal. (Não significou nada – no dia seguinte eu ainda era um soldado raso da KP – Kitchen Police).
    Durante toda minha vida consegui notas como essa, o que sempre me deu uma idéia de que eu era realmente muito inteligente. E eu imaginava que as outras pessoas também achavam isso.
    Porém, na verdade, será que essas notas não significam apenas que eu sou muito bom para responder um tipo específico de perguntas acadêmicas, consideradas pertinentes pelas pessoas que formularam esses testes de inteligência, e que provavelmente têm uma habilidade intelectual parecida com a minha?
    Por exemplo, eu conhecia um mecânico que jamais conseguiria passar em um teste desses, acho que não chegaria a fazer 80 pontos. Portanto, sempre me considerei muito mais inteligente que ele.
    Mas, quando acontecia alguma coisa com o meu carro e eu precisava de alguém para dar um jeito rápido, era ele que eu procurava. Observava como ele investigava a situação enquanto fazia seus pronunciamentos sábios e profundos, como se fossem oráculos divinos. No fim, ele sempre consertava meu carro.
    Então imagine se esses testes de inteligência fossem preparados pelo meu mecânico. Ou por um carpinteiro, ou um fazendeiro, ou qualquer outro que não fosse um acadêmico.
    Em qualquer desses testes eu comprovaria minha total ignorância e estupidez. Na verdade, seria mesmo considerado um ignorante, um estúpido.
    Em um mundo onde eu não pudesse me valer do meu treinamento acadêmico ou do meu talento com as palavras e tivesse que fazer algum trabalho com as minhas mãos ou desembaraçar alguma coisa complicada, eu me daria muito mal. A minha inteligência, portanto, não é algo absoluto, mas sim algo imposto como tal, por uma pequena parcela da sociedade em que vivo.
    Vamos considerar o meu mecânico, mais uma vez. Ele adorava contar piadas. Certa vez ele levantou sua cabeça por cima do capô do meu carro e me perguntou:
    “Doutor, um surdo-mudo entrou numa loja de construção para comprar uns pregos. Ele colocou dois dedos no balcão como se estivesse segurando um prego invisível e com a outra mão, imitou umas marteladas. O balconista trouxe então um martelo. Ele balançou a cabeça de um lado para o outro negativamente e apontou para os dedos no balcão. Dessa vez o balconista trouxe vários pregos, ele escolheu o tamanho que queria e foi embora. O cliente seguinte era um cego. Ele queria comprar uma tesoura. Como o senhor acha que ele fez?”
    Eu levantei minha mão e “cortei o ar” com dois dedos, como uma tesoura.
    “Mas você é muito burro mesmo! Ele simplesmente abriu a boca e usou a voz para pedir”
    Enquanto meu mecânico gargalhava, ele ainda falou: “Tô fazendo essa pegadinha com todos os clientes hoje.”
    “E muitos caíram?” perguntei esperançoso.
    “Alguns. Mas com você eu tinha certeza absoluta que ia funcionar”.
    “Ah, é? Por quê?”
    “Porque você tem muito estudo, doutor, sabia que não seria muito esperto”
    E algo dentro de mim dizia que ele tinha alguma razão nisso tudo.

    quarta-feira, 4 de julho de 2012


    Fernando Ferro: A Voz do Brasil como patrimônio cultural brasileiro

    publicado em 3 de julho de 2012 às 20:48
    da Liderança do PT na Câmara, via assessoria de imprensa
    O deputado Fernando Ferro (PT-PE), vice-líder da bancada do PT, protocolou na Mesa da Câmara dos Deputados, nesta terça-feira (3), uma proposição que solicita ao Poder Executivo, por meio do Ministério da Cultura, a inclusão do programa A Voz do Brasil como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.
    “A Voz do Brasil é uma radiografia da história da República. É um programa que  tem um acervo político e cultural importante. A nossa indicação é para que o ministério da Cultura se aproprie, consolide e dê estatuto de Patrimônio Imaterial da memória do Brasil a esse programa”, afirmou Fernando Ferro.
    O parlamentar lembrou que a Voz do Brasil faz parte de um espaço de divulgação das ações do Congresso Nacional, do Executivo e do Judiciário e é um programa já incorporado ao cotidiano de milhões de brasileiros em todas as regiões do País. “É um programa que cumpre um papel social e político de extrema importância”, ressaltou.
    Flexibilização
    O deputado petista criticou a proposta em análise  na Câmara, que propõe a flexibilização do horário da Voz do Brasil. De acordo com Ferro, o projeto representa “uma ofensiva de setores privados da mídia que querem se apropriar desse espaço e, que, no limite, querem extinguir a Voz do Brasil”.
    Na avaliação do vice-líder da bancada do PT, o programa é um dos poucos espaços em que os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário têm para prestar contas à população. Ferro disse ainda que o programa  “alimenta” parcela do povo brasileiro com informações normalmente desprezadas pela midia comercial e, ao mesmo tempo, orienta a população sobre os direitos dela e contribui para o seu posicionamento político.
    Concessão
    De acordo com Fernando Ferro, os canais de rádio e televisão são concessões públicas e, por isso, “não se pode abrir mão” do direito de informar a população. Ainda segundo Ferro, o Brasil está vivendo um processo de apropriação de um espaço de visibilidade de ação de interesse público. “É a privatização da informação e da notícia do Brasil por interesses políticos e ideológicos dos agentes que, hoje, controlam a mídia no País”, criticou o petista.
    http://www.viomundo.com.br/politica/ferro-propoe-a-voz-do-brasil-como-patrimonio-cultural.html

    domingo, 1 de julho de 2012

    A Voz do Brasil


    Beto Almeida e Chico Sant’Anna: Uma regulamentação a favor do povo


    por  Beto Almeida e Chico Sant’Anna
    Nós somos os cantores do rádio
    Nossas canções cruzando o espaço azul
    Vão reunindo, num grande abraço
    Corações de norte a sul…”
    Braguinha
    O líder do PT na Câmara Federal, deputado Jilmar Tato tomou uma atitude corajosa de bloquear a votação do projeto que flexibiliza o horário de transmissão da Voz do Brasil, Cavalo de Tróia que traz consigo o sonho  neoliberal de extinguir o programa o proporcionar uma hora a mais de rádio-baixaria, alienante e de um jornalismo precário, comandado pela ditadura do mercado.
    Os argumentos do líder petista são corretos:  o objetivo é acabar com o programa. Tentaram por via judicial, mas não tiveram êxito. Milhões de brasileiros o escutam assiduamente,  para a grande maioria dos municípios brasileiros, sem a presença de jornalismo, nem impresso  nem de rádio ou TV local, é aVoz do Brasil a única oportunidade de ter acesso a informações relevantes que decidem na vida do cidadão. Ou seja, as decisões do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Tato tem razão, sobretudo se considerarmos que o rádio comercial não oferece pluralidade informativa alguma, submetido que está aos poderes  e interesses econômicos , além de sonegar ou deformar, não informa sobre os atos dos poderes públicos, já que parte de um fanatismo editorial anti-estado.
    O grande empresariado de mídia,  maior interessado  no suculento horário a ser vendido, lança inúmeros preconceitos contra o programa radiofônico, hoje o mais antigo do mundo em veiculação. Entre eles o de tentar criticar, injustamente, criticar sua inutilidade.  Certamente não escutam a veiculação já que a Voz do Brasil presta inúmeras informações importantes à sociedade brasileira, em sua maioria sem qualquer acesso à leitura de jornais que, como sabemos, registram credibilidade e circulação decadentes. Alguns exemplos: informações sobre o Fundeb, fazendo com que a população de cada município saiba que os recursos já estão em mãos do prefeito, possibilitando a cobrança cidadã de sua aplicação.
     A missão pública do rádio
    Voz do Brasil veicula também, e amplamente,  as informações sobre os recursos de cada programa do Ministério da Saúde, possibilitando controle e participação dos conselhos locais. Igualmente, informações sobre os projetos ligados ao Ministério da Pesca chegam, diariamente, ao litoral e às populações ribeirinhas pelo rádio, alcançando as embarcações onde estiverem.  Há ainda a divulgação sistemática, pela Voz do Brasil, de informações sobre programas como o Pronaf, o PAA, ou sobre o Pronera, todos destinados à famílias que vivem no campo, nos assentamentos ou em grotões isolados, alcançados , em horário adequado, pelo sinal do rádio. O camponês também se informa sobre os preços mínimos. Basta que se consulte aos parlamentares da região amazônica que divulgam o preço da borracha da tribuna porque sabem que a Voz do Brasil será captada pelos seringueiros. Tem ou não utilidade social? Cumpre ou não a missão pública do rádio?
    Que o programa pode ser aperfeiçoado, não há a menor dúvida. Mas, certamente não serão os editorialistas do Estadão ou da Fundação Milenium os maiores interessados neste aperfeiçoamento democrático do rádio, num país onde , recorde-se, é praticamente proibida da leitura de jornais. Aliás, sobre o Estadão, vale recordar que o inesquecível Monteiro Lobato, levou aos proprietários do jornalãoa proposta de que aderisse e veiculasse uma nobre campanha para combater o analfabetismo. A resposta de um de seus proprietários é lapidar e deve ser para sempre lembrada: “ô Lobato, mas se  todos aprenderem a ler e a escrever, quem é que vai pegar na enxada?” Não surpreende que argumentem agora contra o papel social desenvolvido pela Voz do Brasil.
    Aperfeiçoar, não flexibilizar
    O aperfeiçoamento da Voz do Brasil tem por base o fato de ser uma bem sucedida experiência de regulamentação democrática, podendo, por exemplo, ter sua versão televisiva, tal como foi o Diário da Constituinte, de 10 minutos diários na TV quando se escrevia a Constituição Cidadã, entre 1986 e 1988. E pode também, sempre apoiada do fato de que é uma regulamentação, permitir que a Voz de mais brasileiros ecoe pelo Programa. Criar uma espécie de Direito de Antena  na Voz do Brasil, por meio da qual seja ouvida também a voz das entidades da sociedade brasileira.
    Talvez seja este um dos fatores a tirar o sono da oligarquia midiática brasileira, pois em vários países da América Latina, por meio da regulamentação democrática e apoiados no voto popular, governos estão possibilitando a prática da pluralidade informativa, sonegada sempre quando a mídia é exclusivamente e ditatorialmente  comercial. Para compensar o predomínio esmagador do rádio comercial, uma hora de programação diária, e apenas no rádio, é até uma cota tímida, embora democrática.
    Conspiração?
    Também para aperfeiçoar, por meio de medidas administrativas no âmbito da EBC , é possível fazer os ajustes necessários para que a veiculação do programa seja para o horário mais adequado nos estados com fuso horário. Não é necessário alterar a lei para isto. Fica claro que o objetivo é outro: tornar impossível a fiscalização sobre 7 mil emissoras de rádio  -  a Anatel não tem a mais mínima estrutura para isto   -  e levar o programa a ser inaudível, esquecido, facilitando sua extinção posterior. Sobre  as dificuldades de fiscalização, basta dizer que a esmagadora maioria das rádios brasileiras hoje não cumprem a legislação no que toca a produzir, obrigatoriamente,  um percentual  mínimo de programação jornalística local. A Voz do Brasil é , para a maioria das emissoras, o único espaço jornalístico. Sua estrutura e redação deveriam ser ampliadas, com sucursais em todas as capitais, trazendo ao conhecimento de toda a sociedade,  a multifacética aventura sócio-economica do povo brasileiro em todos os quadrantes deste continente. A palavra de ordem justa não é flexibilizar mas,  sim,  fortalecer, qualificar, aperfeiçoar, expandir o jornalismo público.  Exatamente na linha contrária do defendido por certas fundações financiadas por recursos de sinistras instituições estrangeiras, como a Usaid, de países que querem a diluição do estado nacional, que interferem na vida de outros povos  e até mesmo podem conspirar com a ideia da fragmentação do Brasil.
    Era Vargas
    É tola a argumentação de que a Voz do Brasil seria resquício da Era Vargas como se isto fosse negativo. Também a CLT é um “resquício” salutar da Era Vargas, tanto é que aquele ex-presidente pretendeu demolir a Era Vargas e , até hoje, periodicamente, surgem tentativas conspirativas do grande capital para “flexibilizar” a CLT. Também são produto desta mesma Era Vargas o Instituto Nacional do Cinema Educativo, dirigido pelos geniais  Roquete Pinto  e Humberto Mauro, a Rádio Nacional, o Instituto Nacional de Música, dirigido por Villa-Lobos, gênio da raça?  E, claro, é também fruto da Era Vargas o direito de voto à mulher, a licença maternidade que agora foi expandida para 6 meses,  a Escola Nova de Anísio Teixeira, a indústria naval, a Cia Siderúrgica de Volta Redonda, a Petrobrás,  a Vale do Rio Doce, cuja reestatização vem sendo defendida aplicadamente pelo MST, numa dialética aliança histórica com o baixinho dos pampas. Assim, afirmar que é resquício da Era Vargas não desqualifica, ao contrário, como vimos, é parte de um processo de conquistas do povo brasileiro. Claro, não é o que pensa o capital estrangeiro, as oligarquias e os novos sucedâneos da UDN. Que a esta altura  já se deram conta de que o presidente Lula fez  importantes e significativas revisões sobre a avaliação que tinha sobre o papel de Vargas na história. A presidenta Dilma também valoriza sobremaneira o papel de Vargas, como tantas vezes já declarou.
    Esta investida dos empresários do rádio não é a única. Há anos deixaram de veicular o Projeto Minerva , dedicado à nobre causa da alfabetização à distância, via rádio, com 30 minutos diários, que era veiculado logo após a Voz do Brasil. Em troca, temos hoje mais  meia hora de  rádio comercial e alienante. É o que nos espera se aprovado este projeto de lei sobre a Voz do Brasil.
    Água potável
    Vale lembrar ainda que quando pleitearam a concessão para a exploração de serviços de radiodifusão, os  empresários firmaram contratos comprometendo-se a cumprir com todas as obrigações deles decorrentes. Estariam tentando agora uma quebra de contrato, o que pode ensejar uma perda da concessão. Comparando: como  reagiria a sociedade se uma concessionária para o fornecimento de água potável, no meio do contrato, deixasse de adicionar flúor ou cloro no produto?
    O projeto de lei que flexibiliza a Voz do Brasil , como apontou o líder petista, jamais foi examinado em profundidade. Ele sequer foi submetido ao plenário na Câmara e teve sua tramitação no Senado durante o ano eleitoral de 2010, quando a  a Casa encontrava-se com suas  atividades restringidas. Além disso, padece de um problema de técnica legislativa crucial: toda matéria legislativa sobre comunicação deve, obrigatoriamente, ser examinada pelo Conselho de Comunicação Social, e isto não foi observado até o momento.
    Finalmente, não pode ser mais passional e fanático o argumento do campo do grande empresariado da comunicação afirmando que a Voz do Brasil humilha o povo brasileiro. O que humilha e desrespeita o povo brasileiro é um rádio comercial que agride a constituição  diuturnamente, com práticas de anti-jornalismo, com o culto ao mórbido e à violência exacerbados, muitas vezes  com práticas xenófobas contra  países sul-americanos, com os quais queremos uma integração solidária e democrática. Ou, simplesmente, com a regular ausência de informações educativas, civilizatórias e humanizadoras. Em muitos casos, apenas durante a exibição da Voz do Brasil se vê algo de informativo, real e não aviltante.
    Beto Almeida e Chico Sant’Anna são jornalistas
    Movimento em Defesa da Voz do Brasil
     http://migre.me/9Ivcl